“Eu nasci com o cabelo enroladinho…

Merida, protagonista do filme Valente, da Disney, é dona de uma enorme cabeleira cacheada

… um monte de cachinho na cachola, toin toin  toin toin toin.” A imagem de várias crianças de cabelos cacheados sorridentes e tomando banho surgiu na sua cabeça? É, na minha também. Mas sabe uma coisa sobre as crianças desse comercial de anos atrás? Uma boa parte delas não deve manter mais os cachinhos. Sim, porque o que – sempre – está na moda, caros leitores, são os cabelos lisos.

Quantas pessoas que você conhece alisam ou escovam os cabelos porque acham que assim vão ficar mais bonitas? Quantas vivem agarradas com o secador e a chapinha e morrem de medo de serem pegas desprevenidas por uma chuva inesperada? É um número grande, aposto. Agora tente responder a essa pergunta: quantas pessoas você conhece que abandonaram os alisamentos e assumiram seus cachinhos?

Poucas, não é? Mas Juany Nunes, 21 anos, é uma delas. “Desde os seis anos de idade comecei a passar produtos no meu cabelo. Porque queria, porque achava bonito e porque as referências que eu tinha de beleza – as novelas, os filmes e as propagandas –, influenciavam a minha formação como criança e me mostravam o cabelo liso como ideal. Agora, com ele de volta ao natural, tenho certeza que é meu, e gosto dele assim… meio fuá mesmo. Se existem pessoas que não gostam, problema é delas, a minha intenção não é de agradar mesmo não. Estou feliz e pronto”, explica a jovem, que é estudante do curso de História, na Universidade Federal de Pernambuco.

O “antes” e “depois” da Juany

Não são poucas as crianças que decidem, como Juany, alisar os cabelos, porque sentem que isso é necessário para se moldar ao padrão de beleza social. Quem nunca ouviu quando criança alguém se referir ao outro como cabelo de bombril, fuá, pichaim, cabelo ruim ou qualquer um dos variados nomes que a criativa mente infantil inventava? Que se congratule aquele com cabelos cacheados e crespos que nunca ouviu uma piadinha ofensiva sobre seu cabelo, porque é uma exceção enorme à regra.

“Na sociedade de hoje, as crianças têm acesso à internet o tempo inteiro. São blogs, sites, propagandas e a televisão mostrando um determinado padrão de beleza. Isso passa um pouquinho pelo preconceito, especialmente essa história de que o negro tem o cabelo ruim e o branco, bom. O negro tem aquele tipo de cabelo crespo porque é da raça. Agora a qualidade de bom ou ruim que se atribui é histórica, porque vem dos escravos, da questão de quem tem mais poder. Esse tipo de coisa a gente não pode alimentar de maneira nenhuma”, afirma Kathy S. Guimarães, psicóloga infantil há 21 anos.

[imagem: jezebel]

“Às vezes é como se você fosse a estranha ou a louca sabe, mas a realidade é que é muito complicado você ir de encontro ao que é vendido ou o que está na moda. Não me frustro por isso, acho na verdade muito legal porque sou muito mais apontada com uma menina que ousa do que aquela que parece com tantas outras”, afirma Juany, que está mantendo os cabelos ao natural desde 2009.

Esta também é a opinião da estudante de Engenharia Agrícola e Ambiental, Raíssa Rattes: “A mídia e os meios de comunicação ditam a imagem da mulher magra, bonita e de cabelos lisos e de certa forma acaba influenciando as pessoas. Aconselho a meninas que pensam em colocar produtos químicos no cabelo que não façam. Hoje em dia morro de inveja do cabelo cacheado da minha irmã, espero que o meu volte a ser como antes”. Raíssa começou a alisar os cabelos aos 12 anos de idade, escondida da mãe. Há três meses ela decidiu deixar as madeixas voltarem ao natural.

O “antes” e “depois” da Raíssa

A justificativa de que o cabelo cacheado gera mais dificuldade para cuidar é a mais ouvida quando se pergunta o porquê do uso de produtos para alisar os cabelos. Sim, pentear os cachinhos das crianças às vezes gera beicinhos, choro e lágrimas, por isso é preciso paciência e cuidado por parte dos pais.

É necessário mostrar à criança que o cabelo dela não é feio, apenas diferente [divulgação]

É necessário mostrar à criança que o cabelo crespo dela não é feio, apenas diferente. Tem vários penteados bonitos para esse tipo de cabelo – tranças e adereços coloridos são sempre uma boa pedida; além disso, existem no mercado vários produtos e cosméticos específicos pros cachinhos. A internet também pode ajudar, já que existem vários blogs voltados para o assunto, como o Cabelo Crespo é Cabelo Bom e o Encaracoladas.

Para os pais que estão preocupados com seus filhos e filhas que estão sofrendo bullying por causa dos cabelos ou desejam mudar para se igualar aos demais, a psicóloga dá dicas de como lidar com situação: “Os pais devem conversar com a criança, entender porque ela quer mudar, saber por que ela está insatisfeita com o cabelo que tem. Essa é uma questão delicada porque envolve vários fatores: a auto-imagem, necessidade de aprovação social e coletiva, o modelo imposto socialmente e também a questão da praticidade. Se houver bullying no colégio, precisam conversar com o grupo escolar para tentar fazer com que a criança seja aceita nos grupos. A escola tem que ter professores treinados e um bom aparato pedagógico para lidar bem com a situação. Não adianta o pai tentar proteger demais seu filho, porque o meio externo é hostil. Não se deve tirar a criança daquele ambiente, e sim seguir o caminho da integração para evitar e superar o bullying”, explica.

 A doutora afirma ainda que, se a criança ou adolescente deseja mesmo mudar, os pais devem ajudá-los e apoia-los nesse processo, lembrando que a idade recomendada para se aplicar química em crianças é a partir dos 12 anos, pois os produtos usados para relaxar ou alisar contêm ingredientes que podem causar danos irreparáveis no couro cabeludo. “A adolescência é um momento em que você está se descobrindo. Pro adolescente o que importa é o que está acontecendo agora. Ele tem dificuldade de visualizar o futuro e o passado é esquecido rapidinho. O que sente é que precisa ser aceito agora. Se todo mundo está botando moicano, ele vai colocar um moicano. Essas coisas aparentemente doidas que os adolescentes fazem são parte de um processo de desenvolvimento”, comenta.

E pensar que tem gente que acha o cabelo dela feio…

Kathy alerta que o importante mesmo é se sentir bem na sua própria pele. Caroline Arruda, 18 anos, sabe bem disso. E está satisfeita com o visual que tem hoje em dia, com suas mechas quimicamente lisas. “Na infância eu ficava bastante incomodada. Porque além de cacheado, meu cabelo era volumoso. Tenho muito cabelo, o que dificultava ainda mais para controlar o volume. Meus cachos eram indefinidos, não era aqueles cachos lindos e bem formadinhos. Era um sofrimento. Hoje o cabelo está bem mais liso, com o volume bem mais controlado. Não tenho vontade de ter cachos novamente, apesar de achar bonito em outras pessoas”.

Em outras palavras: seja liso, castanho, cacheado, curto, loiro, ondulado, verde, longo, crespo, preto, médio. Não importa como ou de que cor seu cabelo é. O importante é que ele seja do jeito que você gosta.


Author: Mayara Renata

Uma jornalista pernambucana que ama ler, ouvir música, escrever e sonhar. Queria ter nascido como Audrey Hepburn e sonha em roubar o marido da Amanda Palmer ou encontrar um escocês JAMMF pra chamar de seu.

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9 Comments

  1. Um dos posts mais lidos no meu blog é justamente um em que falo sobre isso (http://semformolnaoalisa.blogspot.com.br/2011/10/morte-chapinha.html), de um ponto de vista bem mais pessoal, é claro.
    Eu cresci na década de 90 e no começo da década de 2000, algo como o “boom da chapinha”. Se na década de 80 a moda era o cabelo armadão (e muitas vezes cacheado), nos anos 90 isso se inverteu. E perdura até hoje. É uma pena. As pessoas dizem que a moda está mais democrática, que o natural agora é in. Cadê?

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  2. PS: Eu também escrevi no meu blog que cabelo cacheado dá muito trabalho. Mas, pensando bem, tem cabelo liso que dá mais trabalho que cacheado. E cabelo alisado quimicamente então!
    Se serve de consolo para alguém, quando eu era criança, minha melhor amiga tinha o cabelo mais lindo desse mundo. Loirinho, lisinho, sem volume. Eu a invejava terrivelmente, afinal ela era a menina mais linda da escola (na minha cabeça). Quando já éramos adolescentes, ela me contou que era terrível ter o cabelo dela. Ele era muito fino, vivia quebrando, caindo, fazendo nós impossíveis. Ela me disse que vivia tendo que cortar algumas mechinhas por conta disso e que tinha que escovar o cabelo o tempo todo. Além disso, poucos cabeleireiros acertavam no corte, qualquer errinho, deixava o cabelo dela esquisito. Por fim, não havia baby liss nesse mundo que enrolasse aqueles fios. Ela nunca teria cachos. Toda festa, todo evento, era o mesmo cabelo. Até as fivelas que ela colocava escorregavam. Quando ouvi isso, me enchi de orgulho do meu cabelo enrolado e super versátil. (:

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    • @Dani, menina, EU NEM SABIA que teu cabelo era cacheado. Pois é, minha filha, não é NEM UM POUCO fácil ter cabelo cacheado nos dias atuais. A moda é chapinha. Eu, particularmente, estou achando muito caro atolar química no meu cabelo o tempo todo. Então estou pensando SERIAMENTE em começar a trabalhar a naturalidade nos fios. Não sei, é uma coisa a se pensar.

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  3. Eu sou uma das reféns do cabelo liso, mas morro de vontade de deixar eles do jeito natural. Os meus não são cacheados, mas mesmo assim sinto um pouco do peso por eles não serem lisos…. acho que até ter cabelo ondulado é complicado hoje em dia.
    Mas como a moda está mudando e os looks com cabelos ondulados e cacheados estão em alta, vai que essa onda química diminui.

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  4. Gramado do vizinho sempre é mais verde. Nasci com um cabelo bem liso, mas bem liso mesmo daquele que nem o rabo de cavalo parava (sofri muito na virada do milênio quando os tererês eram modas e eu usava e perdia tudo porque escorria) e sempre quis cabelo cacheado. Cabelo cacheado dá pra variar: usar ondas mais largas num dia e mais comportadas no outro, mudar de visual completamente se prender o cabelo de um jeito ou de outro. Cabelo liso é muito blegh, é muito do mesmo. Tenho que lavar o cabelo duas vezes por dia no verão, tenho que me encher de laque pro coque ficar no lugar e não consigo usar franja porque o meu cabelo é muito oleoso.

    Tenho uma amiga que largou as progressivas pra assumir os cachos e o que eu mais gosto quando saio com ela é ver alguma menininha filha de mãe alisada que logo diz “Olha mamãe o cabelo dela é igual ao meu!”.

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    • A grama do vizinho é SEMPRE mais verde mesmo, Carolina. O cabelo da minha irmã é liso, e ela queria que fosse cacheado. O meu é cacheado e eu queria que fosse liso.
      Parece que o ser humano nunca tá satisfeito com o que tem. =)

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  5. Esses dias mesmo o pessoal que se diz meus amigos (aham, sei) estavam falando que meu cabelo parece uma juba de leão e nem sei mais o quê apenas porque eu não o aliso. Não gosto de cabelo liso. Há quem fique legal, mas eu não acho que eu ficaria. Fora que meu cabelo nem é “cheio”, sabe? Ele tem uns cachos bonitinhos, nada muito, é mais pra ondulado, e eu tenho o maior orgulho.
    Acho uma bobagem essa coisa de que “alisabel é que é legal”. Não acho.
    Nada contra quem tem cabelo liso – porque há, sim, quem fique linda de cabelo liso – mas eu acho que o cabelo ondulado/cacheado dá mais cara de “mulher” a uma pessoa do que a moda da chapinha.

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    • “alisabel é que é legal” ahaahahahahahahah
      Meu irmão sempre canta aquela musica de caetano “Gosto tanto de você, Leãozinho, caminhando sobre o sol…”. Antes eu me irritava, hoje eu rio ou ignoro. Pode chamar de juba, que eu não ligo. =P
      O ruim da chapinha é que todo mundo fica igual. Já viu quantas loiras de cabelo alisado tem no shopping, por exemplo?

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  6. Eu adoro pessoas que usam o cabelo natural, seja liso, encaracolado ou ondulado. Hoje em dia eu uso o meu com chapinha (ele é naturalmente ondulado), e que estou tentando fazer é deixar crescer para voltar a usar natural, pois com ele curto fica volumoso (o meu com volume não acho bonito não). E por isso a alternativa que arrumei é o babyliss, pois fica liso mas com ondas e eu adoro. Acho que não importa se é liso ou encaracolado, desde que a pessoa esteja feliz e desde que o cabelo seja bem cuidado

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